O AMOR
DO MEU PAI: HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
Por
Raimundo Flor Monteiro/Chagas de Cristo
O vocábulo sociedade no
campo da sociologia é um sf (lat societate) que
significa um conjunto relativamente
complexo de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente
associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a
continuidade do todo e a realização de seus ideais. Em um sentido, o mais geral,
a sociedade abrange os diferentes grupos parciais (família, sindicato, igreja
etc.) que dentro dela se formam. Dentro dessa
concepção de grupo trago a família, a família Monteiro, oriunda do patriarca
Manoel Flor Monteiro e da Matriarca Elvira Rosa Monteiro, meus pais.
Uma outra
interpretação sociológica é a de que
sociedade é uma organização dinâmica de indivíduos autoconscientes e que
compartilham objetivos comuns e são, assim, capazes de ação conjugada.
Foi
ali, sentado do lado esquerdo da carroça ao seu lado, em parelha com o meu pai,
que eu ainda menino de 09 anos, com as mãos trêmulas segurava as rédeas de uma
carroça. “Mantenha o cabresto do animal esticado para que o animal obedeça ao seu
comando de seguir em frente, dobrar bruscamente ou suavemente a direita ou a
esquerda''. Eu estava ali conduzindo uma carroça puxada por um animal de possante
de força. Era eu o condutor e o meu instrutor aquele homem, simples, honesto,
bondoso, trabalhador, era o meu admirável pai. Eu tremia, o gosto de suor de minhas lágrimas que escorregavam em meu rosto, me davam um gosto de sal na boca. Meu pai forjou a minha identidade subjetiva, com um lastro de pedras tão firmes, que eu jamais teria medo de enfrentar qualquer desafio. Foi com ele que aprendi a cuidar
dos animais de carroça, lavar, comprar comida, colocar a comida, montar.
Aprendi tudo com o meu pai desde muito pequeno, sob os seus cuidados, sob a sua
guarda sobre o carinho, sob o seu amor, sob o seu cheiro de suor cheiroso o
cheiro do meu, me ensinou. Meu irmão Evangelho já era um homem e meus dois
irmão Manoel Filho e José Ramos eram muito pequenos. Eu tinha o tamanho ideal
entre 08 a 13 anos eu vivia colado no meu pai. Na verdade desde a primeira,
segunda e terceira infância fui o predileto do meu pai, porque era quito e
fazia tudo que ele mandava. Eu o admirava muito pela agilidade no trabalho, a agilidade
em montar os arreios no animal para depois colocá-la na carroça, força em carregar
as mercadorias e arrumar e amarrar com cordas fortes e laçadas difíceis. Desde
pequeno eu queria ser igual ao meu pai fazer as coisas que ele fazia ser forte
como ele era, ser inteligente, hábil e ligeiro. A minha infância foi uma fase
de dourados sonhos afetivos, em que eu dormia e sonhava no outro acordar e
acompanhar meu pai naquela adorável rotina de acompanhar o meu pai e
modestamente ser parecido com ele. Foi num dia chuvoso que, pela manhã, acompanhei meu pai no transporte de um carrada de quatro quartos de boi. A carrada
tomava toda carroça e não havia espaço para mim. Por isso, eu acompanhava a
carroça do lado oposto do meu pai. Em meio ao trajeto cruzamos com uma boiada
de gado que incluía muitas vacas bravas. Foi quando, com medo das vacas, me
apressei para sentar no eixo central em baixo da carroça. Abalado pelo medo
acabei me atrapalhando e sentando-me além do eixo e ai resvalei e cai. Além da
pressão do eixo central da carroça sobre as minhas costelas, acabei ficando em
meio a boiada sob os pés das vacas. O medo, o terror e um grito de pavor saiu
de minha boca, pressionada pela minha alma, como se naquele momento o mundo
tivesse acabado para mim, com a costela quebrada e pisoteado pelas patas das
vacas. Foi aí que meu pai se impôs ao incidente! Foi naquela fração de segundos que o mundo escureceu para
mim. Todavia, em meio a fumaça, voltei ainda em meio as vacas mas nos braços de
meu pai. Naquele momento passou medo, o terror e até mesmo a dor nas costelas.
Eu apenas ouvia a sua voz: “você está bem”? “você está bem”? respondi-lhe: estou
bem, graças a você meu pai, meu amigo e protetor.
Acompanhei
as mudanças na vida do meu pai, na década de 80 já com mais de 60 anos ele não
tinha mais a força a destreza a agilidade que que um carroceiro precisa para
executar as tarefas de um frete de materiais pesados. Ele que sempre foi
apaixonado pela lavora resolveu ser agricultor. Já nos anos 70, a pedido de
minha mãe, plantou uma enorme roça de 12 linhas em Taboca vilarejo de Bacabal.
Assim, iniciou plantando grandes roças de arroz e aos poucos, ante as
dificuldade, migrou para pequenas vazantes situadas as margens do rio mearim.
Nelas papai plantava sobretudo feijão, milho a abóboras. Ainda nos anos 80
comprou a propriedade do Sr Valetim, esposo de dona Cristina, mãe de José Ester
Pinto. Uma propriedade localizada na prainha, próxima a fazenda o Zica, filho
do Sr. Maneco. Lá papai permaneceu as mesmas culturas contrabalanceadas com
pepino e melancia. Era comum, quase todos os dias, em nossa casa, estarmos com a
sala cheia de milho trazidos em côfos e os jacás de feijão, arrumados aos montes e ali
emassávamos para no outro dia bem cedo papai vender as banqueiras da feira de
Bacabal.
Neste
aspecto papai sempre foi um trabalhador que muito contribuiu para a formação da
identidade dos cidadãos de Bacabal, em especial a da Trizidela. Primeiro pelo
seu caráter sério e trabalhador. Papai sempre foi considerado um homem honrado
e honesto que tirava do seu trabalho o sustento de sua família. Os homens
assim, severos consigo mesmo, assíduos com as suas responsabilidades de pai,
sempre são admirados pelos outros. Seu legado aos filhos e aos vizinhos é
sempre daquele professor da vida que não para para ensinar, especialmente
porque ensina pelo pragmatismo, ensina pelo exemplo. Era herança especial
advinda da ação no ato de trabalhar é que gerou um dos pressupostos fundamentais
da teoria marxiana, o trabalho com princípio educativo. É pelo exemplo, no
exercício do trabalho, enquanto ato de sobrevivência, que se forma uma
identidade comum em um determinado grupo social. Dai, a formação de hábitos que
vão desde acordar cedo, preparar-se para o trabalho, ir ao trabalho, planejar o
que será feito, selecionar as ferramentas, executar e avaliar são constructos
culturais que se encravam no âmago de uma comunidade, especialmente, quando é
realizada por líderes como era meu pai. Karl Marx, e talvez um socialismo ingênuo, estivesse presente em papai, pois
papai estava presente em Marx, porque meu pai foi um agente construtor de uma
história que forjou uma cultura nobre (boa) nos seus filhos, nos vizinhos e na
comunidade do bairro Trizidela ao afirma que o bairro era de todos. O Sr Manoel Carroceiro foi um ser histórico
inigualável porque trazia em seu espírito, dentro de si um pensamento humanista,
ou seja, um trazia um sentido
novo que tomou a cultura legada do renascimento, inteiramente orientada para a
valorização, compreensão e o estudo do homem, com o fito de possibilitar o
desenvolvimento da sua personalidade, das suas faculdades criadoras, da
exaltação e satisfação da sensibilidade e máximo proveito dos recursos
naturais. O vasto conhecimento de papai demonstrado pelo respeito
aos outros homens e o amor pela natureza era, sobretudo, demonstrado na
prática, por atos não impactantes que preservavam tanto o homem pela natureza.
Papai não fazia discurso de exaltação e/ou contemplação, até porque era
analfabeto, apesar de de se expressasr muito bem. Papai agia na prática, seu
compromisso era com o real na modificação e transformação da natureza e dos
homens.
O
trabalho como princípio educativo é uma dimensão do conviver em uma sociedade baseada
nos princípios do ser em detrimento do ter essência da sociedade capitalista.
Por existir num mundo capitalista meu pai foi vítima de uma política de estado
que privilegiava, sobretudo, ignorar a população do interior do Piauí no
período da década de 1910, quando ele nasceu, até a década de 1960 quando ele e
família veio para o Maranhão que, em termo histórico também não sofria nenhuma
intervenção do estado, quer no âmbito federal, estadual ou municipal. Assim, jogado
a própria sorte, sem educação, papai cresceu sem saber ler e/ou escrever. Todavia,
aprendeu a essência da propriedade privada, aprendeu a contar e tinha grande
inteligência para comprar e vender. Ainda rapaz, em água branca do Piauí,
tonou-se um empreendedor do ramo de compra e venda de galinha. Comprava os
frangos no interior e vendia na capital Teresina, em tal negócio prosperou e ajudou
minha avó a Sra Prezilina Martins a sobreviver mais comodamente.
Continuar
relatando as profissões: em Teresina, no Bairro da Piçarra, ante a dificuldade
de acesso e obtenção de água potável, tornou administrador de poço, no qual
ganhava a vida e sustentava a vida vendendo água aos moradores do bairro da
piçarra em Teresina. Acordava a 05 da manhã e vendia água até 10h da noite. O
trabalho artesanal resumia-se em girar uma gangorra com duas latas de água.
Enquanto uma subia cheia de água outra descia vazia para se enchida. A gangorra
era movida manualmente por meu pai, que ainda jovem não se ressentia nenhum
pouco de cansaço ou desgaste físico. Assim, nesse modo de vida, papai viveu
cerca de 13 anos, uma vez que ao sair de São Felix Evangelho, meu irmão mais
velho tinha cerca da 08 anos e Elpídia 03 anos. Aos 18 anos Evangelho serviu ao
exército em Teresina e Elpídia ainda muito jovem casou-se com Fernando, primo
de mamão oriundo da família do tio José Passarinho.















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